Sexta palavra de Jesus Cristo na cruz:
Consummatum est
“Tudo está consumado”.
(Io. 9, 30)
I. Nosso amabilíssimo Jesus, chegado o momento de render o último suspiro,
disse com voz moribunda: Tudo está consumado. Pronunciando estas palavras,
repassou em seu pensamento todo o decurso de sua vida, viu todos os seus
trabalhos, a pobreza, as dores, as ignomínias que tinha sofrido e tudo ofereceu
de novo a seu Pai pela salvação do mundo. Depois, voltando-se para nós disse:
Tudo está consumado. — Foi como se dissesse: Homens, tudo está consumado, tudo
está cumprido; a ora da vossa redenção se completou, a divina justiça está
satisfeita, o paraíso está aberto. Et ecce tempus tuum, tempus amantium (1) —
Eis-aqui o vosso tempo, o tempo dos que amam. É tempo, enfim, ó homens, de vos
resolverdes a amar-me. Amai-me, pois, amai-me; porque nada mais tenho a fazer
para ser amado por vós.
Tudo está consumado. Vede, disse então Jesus moribundo, vede o que tenho feito
para adquirir o vosso amor. Por Vós tenho levado uma vida cheia de tribulações;
no fim de meus dias, antes de morrer, consenti que fosse derramado o meu
sangue, que me escarrassem no rosto, que me despedaçassem o corpo, que me
coroassem de espinhos; finalmente, sujeitei-me a suportar as dores da agonia
sobre este madeiro em que me vedes. Que resta fazer? Uma só coisa: expirar por
vós. Sim, quero morrer. Vem, ó morte, eu to permito, tira-me a vida pela
salvação de minhas ovelhas, amai-me, amai-me, porque já não posso ir mais longe
para me fazer amar. Consummatum est — “Tudo está consumado”.
Amemos, pois, a nosso Jesus, e, conforme à exortação do Apóstolo, provemos-Lhe
nosso amor, correndo com paciência generosa ao combate que em vida teremos de
sustentar conta os nossos inimigos espirituais; provemos-lho resistindo até ao
fim as tentações, a exemplo de Jesus Cristo mesmo, que não desceu da cruz antes
de expiar e quis consumar o seu sacrifício até morrer: Per patientiam curramus
ad propositum nobis certamen, aspicientes in auctorem fidei et consummatorem
Iesum (2) — “Corramos pela paciência ao combate que nos é proposto, olhando
para o autor e consumador da fé, Jesus”.
II. Quando as paixões interiores, as tentações do demônio, ou as perseguições
da parte dos bons, nos fizerem perder a paciência e aceitar a ofensa de Deus,
olhemos para Jesus crucificado que derramou todo o seu sangue pela nossa salvação
e lembremo-nos que por seu amor não temos ainda derramado uma só gota de
sangue: Nondum enim usque ad sanguinem restitistis, adversus peccatum
repugnantes (3) — “Ainda não resististes até o sangue, combatendo contra o
pecado”.
Quando tivermos de ceder em algum pundonor, de reprimir algum ressentimento, de
nos privarmos de alguma satisfação, de alguma curiosidade ou de outra coisa
inútil à nossa alma, tenhamos pejo de o recusarmos a Jesus Cristo. Jesus se nos
deu sem reserva, deu-nos toda a sua vida, todo o seu sangue: tenhamos, pois,
pejo de usarmos de reserva para com Ele. Não nos enfastiemos de fazer e sofrer
alguma coisa por amor de Jesus Cristo, que por nossa salvação chegou, no dizer
de Taulero, “a consumar tudo o que a justiça divina exigia, tudo o que o amor
pedia, tudo o que podia dar um claro testemunho de seu amor”.
Meu amabilíssimo Jesus, tomara que eu também pudesse dizer morrendo: Senhor,
tudo está consumado; tenho feito tudo que me mandastes, tenho levado com
paciência a minha cruz, tenho procurado agradar-Vos em tudo. Ah, meu Deus! Se
tivesse de morrer agora, morreria bem descontente de mim mesmo, pois nada disto
poderia dizer. Mas, Senhor, viverei sempre tão ingrato ao vosso amor?
Suplico-Vos que me concedais a graça de Vos agradar nos anos de vida que me
restam, a fim de que, quando vier a morte, possa dizer-Vos que ao menos desde o
dia de hoje cumpri a vossa vontade. — Se no passado Vos ofendi, a vossa morte é
a minha esperança; para o futuro não Vos quero trair mais. De Vós espero a minha
perseverança; eu a peço e o espero, ó meu Jesus, pelos vossos merecimentos. — Ó
Maria, Mãe das dores, ajudai-me pela vossa intercessão. (*I 585)
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1. Ez. 6, 8.
2.
Hebr. 12, 1.
3.
Hebr. 12, 4.
(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações:
Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana
depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder &
Cia, 1922, p. 220 - 223.)
Fonte: São Pio V