sábado, 25 de janeiro de 2014

Sete últimas palavras de Jesus na Cruz: Quinta Palavra.



Quinta palavra de Jesus Cristo na cruz:

Sitio
“Tenho sede”
(Io. 19, 28).


I. Quando Jesus estava próximo à morte, disse: Tenho sedeSitio, a fim de nos manifestar a grande sede corporal que experimentava, quer pelo cansaço causado pelas muitas caminhadas, quer pela tristeza interior, mas principalmente pelo muito sangue derramado no horto, na flagelação, na coroação de espinhos e finalmente sobre a cruz, onde corria abundantemente das chagas das mãos e dos pés, como de quatro fontes. — Jesus Cristo quis padecer este tormento pungentíssimo para que compreendamos quão caro lhe custaram a nossa gulodice e intemperança, causadoras de tantas queixas e murmurações nas famílias e nas comunidades sob pretexto de saúde e de necessidade.

Mais do que pela sede corporal foi Nosso Senhor aflito atormentado por uma sede espiritual, nascida, como escreve São Lourenço Justiniani, da fonte do amor: Sitis haec de amoris fonte nascitur. Com efeito, porque é que Jesus, que não faz menção das outras penas imensas padecidas sobre a cruz, se queixa unicamente da sede? Ah, exclama Santo Agostinho, a sede de Jesus Cristo é o desejo de nossa salvação. Jesus, assim acrescenta São Gregório, ama as nossas almas com excesso de amor e por isso almeja que tenhamos sede dele: Sitit sitiri Deus.

São Basílio dá mais outra explicação e diz que Jesus Cristo manifesta a sua sede para nos dar a entender que pelo amor que nos tem, morria com o desejo de padecer por nós, mais ainda do que tinha padecido: O desiderium Passione maius! Meu irmão, lembremo-nos muitas vezes da dúplice sede de Jesus Cristo. Então não procuraremos mais as delicadezas supérfluas e nos esforçaremos por reconduzir as almas ao seio paternal de Deus; em vez de nos lamentarmos das cruzes que Ele nos envia, aceitá-las-emos com resignação e com desejo de carregarmos por seu amor outras cruzes mais pesadas.

II. Qual foi o alívio que os judeus deram à sede ardente do Redentor? Somente aquele que Davi predissera tanto tempo antes: Dederunt in escam meam fel, et in siti mea potaverunt me aceto (1) — “Deram-me na minha comida fel e na minha sede me propinaram vinagre”. Ó barbaridade inaudita! Exclama São Lourenço Justiniani, ó crueldade sem limites Para apagar a sede a um pobre moribundo, dá-se vinagre misturado com fel! E o povo que trata assim Nosso Senhor é o mesmo que por Ele foi tantas vezes beneficiado com água milagrosa!

Mas de igual maneira e com a mesma ingratidão apagam a dúplice sede de Jesus Cristo os cristãos que pecam por intemperança e que, em vez de reconduzirem as almas ao regaço paterno de Deus, as afastam d’Ele pelos seus maus exemplos. Se no passado nós também temos sido do número de tais ingratos, peçamos perdão ao Senhor e roguemos-Lhe nos dê a graça de O amarmos mais fervorosamente para o futuro.

Ah, meu Senhor, Vós tendes sede de mim, verme desprezível, e eu não terei sede de Vós, meu Deus infinito? — Suplico-Vos pela sede que padecestes sobre a cruz, dai-me uma grande sede de Vos amar e de Vos agradar em tudo! Prometestes dar-nos tudo quanto Vos pedirmos: Petite et accipietis (2). Eis o único favor que Vos peço: o dom de vosso amor. Reconheço minha indignidade, mas a glória de vosso Sangue seja o fazer-Vos amar por um coração que Vos tem desprezado tanto tempo; o abrasar no fogo do amor a um pecador todo cheio de lodo do pecado. Mais do que isto é o que fizestes morrendo por mim.

Ó Senhor infinitamente bom, quisera amar-Vos tanto quanto mereceis. Comprazo-me no amor que Vos têm as almas, vossas diletas, e mais no amor que tendes a Vós mesmo; com ele uno o meu amor miserável. — Amo-Vos, ó Deus eterno, amo-Vos, ó amabilidade infinita. Fazei que eu cresça sempre mais em vosso amor, multiplicando os atos de amor e procurando agradar-Vos em todas as coisas, sem interrupção e sem reserva. Fazei com que, miserável e vil como sou, seja ao menos todo vosso. — Maria, minha Mãe, intercedei por mim. Fazei-o pela Paixão de vosso divino Filho. (*I 584)

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1. Ps.68, 22.
2. Io. 16, 24.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 202 - 204.)

FONTE: São Pio V

São Paulo e sua Conversão.



São Paulo e sua conversão


Com a morte de Herodes cessou por algum tempo a perseguição de Jerusalém. Por este mesmo tempo realizou-se a conversão de São Paulo m dos mais cruéis perseguidores dos cristãos, conhecido até então pelo nome Saulo.

Era ele natural de Tarso, capital da Cilícia; seus pais eram judeus da tribo de Benjamin. Dotado de engenho preclaro e de um caráter ardente e empreendedor, foi enviado a Jerusalém para seguir seus estudos sob a direção de um célebre doutor da lei chamado Gamaliel. Este era Fariseu, isto é, pertencia àquela seita de judeus que se dedicavam especialmente à observância e ao estudo profundo da lei, enquanto que sua piedade não era mais do que uma simples exterioridade.

São Paulo teve parte na morte de Santo Estevão, pois que ele guardava as roupas dos que o apedrejavam; por isto, como observa Santo Agostinho, era de certo modo tão culpável quanto os que apedrejaram. Mas Santo Estevão morrendo rogara por ele, e Deus, que é dono dos corações, e querendo pode transformar um Tigre feroz num mansíssimo cordeiro, ouviu a oração do primeiro mártir e obrou aquele grande milagre da conversão de Saulo. Eis como se realizou: com o fim de perseguir os cristãos com maior autoridade e com maior êxito, Saulo conseguira cartas do grande Sacerdote de Jerusalém, em que era autorizado a se por à frente de certo número de soldados para ir em busca dos cristãos na cidade de Damasco e levá-los a Jerusalém atados com cordas. Cheio de ódio e furor já havia percorrido a maior parte da viagem, quando de repente viu-se rodeado de uma luz mais brilhante que a do Sol e ouviu uma voz que lhe disse: "Saulo, Saulo, porque me persegues"? Saulo ferido por aquelas palavras como por um raio, caiu por terra e com voz trêmula, respondeu: "Quem sois vós, Senhor?". A voz continuou: "Eu sou Jesus a quem tu persegues. É duro para ti recalcitrares contra o aguilhão". "Que quereis que eu faça, Senhor?" Perguntou Saulo. "Levanta-te, acrescentou a voz, entra em Damasco, e ali ser-te-á dito o que hás de fazer". Saulo levantou-se e abrindo os olhos conheceu que estava cego, de modo que teve que fazer-se levar à cidade por seus companheiros.

Ali recebeu o Batismo das mãos de um discípulo chamado Ananias. Enquanto se lhe administrava este Sacramento, caíram de seus olhos umas como escamas e tornou a ver como dantes; então cheio de gratidão para com Deus, começou a pregar com grande zelo o Evangelho.
Os que tinham conhecido o furor de Paulo em perseguir os cristãos ficaram admirados à vista daquela mudança tão repentina; porém ele, vencendo todo respeito humano, não prestava ouvido ao que dizia o povo e discutia com os judeus, provando-lhes com a Sagrada Escritura e com os milagres, que Jesus Cristo era o Messias prometido pelos profetas, enviado por Deus para salvar os homens. A Igreja Católica comemora anualmente a 25 de janeiro o portentoso acontecimento da conversão de São Paulo.

(História Eclesiástica Primeira Época, Cap. 4)

FONTE: São Pio V

25 de Janeiro - Conversão de São Paulo


São Paulo, padroeiro secundário do Grupo Santo Tomás de Aquino, 
exemplo e intercessor por um apostolado verdadeiro e fecundo.


Saulo, natural de Tarso, na Cilícia, filho da tribo de Benjamim e ao mesmo tempo cidadão romano, possuía  talentos extraordinários, bons e nobres sentimentos, aliados a uma força de vontade inquebrantável. No tempo em que Jesus Cristo pregava o Evangelho na Palestina, Saulo, assentado aos pés do célebre Gamaliel, estudava as ciências dos Santos Livros. Os belos talentos que possuía, sua aplicação e sobretudo seu zelo ardente  pela lei de Moisés e as tradições do povo, chamaram a atenção dos fariseus.  

    O crescimento rápido da Igreja de Jesus de Nazaré, o aumento espantoso do número dos discípulos de Cristo crucificado fizeram com que no coração de Saulo se incendiasse um ódio mortal aos cristãos, por ele considerados traidores da causa pátria. Qual lobo voraz, tinha sede do sangue dos mesmos, e quando o primeiro mártir Santo Estevão morreu, vítima do ódio dos fariseus, os algozes depositaram as vestes aos pés de Saulo. Mas o jovem diácono vingou-se do jovem fariseu, alcançando-lhe a conversão, pelas suas orações. 

      Apenas dois anos depois da morte de Jesus, incitado constantemente pelo ódio dos fariseus, Saulo foi ao Sumo Sacerdote, e pediu-lhe cartas para a sinagoga de Damasco, com poderes para trazer presos para Jerusalém todos os partidários de Jesus, homens e mulheres. Em caminho, já  perto daquela cidade, de repente lhe reluziu em torno uma luz, vinda do céu. Caiu por terra e ouviu uma voz, que lhe dizia: “Saulo, Saulo, por que me persegues ?”  Ele respondeu: “Quem sois vós, Senhor ?”  O Senhor disse: “Eu sou Jesus, a quem persegues”. Tremendo e todo assustado, disse: “Senhor, que quereis que eu faça ?”  O Senhor respondeu-lhe: “Levanta-te e entra na cidade, lá se te dirá o que tens que fazer”. Os homens do séqüito, atônitos, ouviram a voz, mas não viam pessoa alguma. Saulo levantou-se, abriu os olhos, mas estava cego. Tomaram-no pela mão e levaram-no para Damasco. Passou três dias sem ver e não comeu nem bebeu. Havia em Damasco um discípulo, chamado Ananias. O Senhor disse-lhe em visão: “Levanta-te e vai à Rua Direita; procura na casa de Judas um homem de Tarso, chamado Saulo. Neste momento ele ora” (e Saulo viu numa visão um homem, chamado Ananias, entrar e impor-lhe  as mãos, para que recobrasse a vista). Ananias respondeu: “Senhor, tenho ouvido falar muito desse homem e do mal que fez aos santos em Jerusalém. Mesmo para cá ele trazia plenos poderes dos Príncipes dos Sacerdotes para meter em ferros todos os que invocam vosso nome”. O Senhor, porém, disse-lhe: “Vai, este homem é um instrumento de minha escolha, para levar o meu nome às nações e aos reis, assim como aos filhos de Israel. Vou ensinar-lhe a ele quanto tem de sofrer por meu nome”. Ananias foi. Chegando à casa, impôs as mãos a Saulo e disse-lhe: “São Paulo, meu irmão, o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho, manda-me para te restituir a vista, e encher-te do Espírito Santo”. No mesmo instante, lhe caíram dos olhos como que escamas, e pode ver. Levantou-se e fez-se batizar.São Paulo ficou ainda alguns dias em Damasco com os discípulos; e logo pregou nas sinagogas, que Jesus é Filho de Deus.

        Os ouvintes ficaram admirados e diziam: “Não era ele, que em Jerusalém queria matar a todos que invocam o nome de Jesus ? Não veio aqui com a determinação de levá-los amarrados aos Príncipes dos Sacerdotes ?”  No entanto, Paulo ganhava de mais a mais, e levava a confusão no meio dos Judeus em Damasco, provando que Jesus é o Messias.
        Decorridos alguns dias, os judeus deliberaram, em conselho, matá-lo. Estas intenções chegaram ao conhecimento de Paulo.  Os judeus vigiavam as portas da cidade dia e noite, para que não escapasse. Mas os discípulos, tomando-o de noite, fizeram-no descer pela muralha dentro de um cesto.

        Chegando a Jerusalém, Paulo procurou achegar-se aos discípulos, mas estes o temiam, não acreditando na sua conversão. Então Barnabé tomou-o e levou-o aos Apóstolos. Contou-lhes que o Senhor tinha aparecido a São Paulo em caminho, e falou-lhes da coragem com que Paulo se tinha declarado, em Damasco, em favor do nome de Jesus. Desde então Paulo ia e vinha com eles em Jerusalém, e falava com toda a liberdade no nome do Senhor.

      São Paulo, dantes inimigo do nome de Cristo, tornou-se-lhe o maior defensor. Outrora recebia cartas com ordens de destruir as Igrejas e aprisionar os cristãos; depois, como Apóstolo, escreveu muitas epístolas, para suma edificação dos fiéis, epístolas cheias de sabedoria e do Espírito Santo. Conhecendo o mal que fizera, conhecendo a gravidade dos seus pecados, empenhou toda a energia na propaganda da doutrina de Jesus Cristo.

  Percorreu a Asia Menor, atravessou todo o Mediterrâneo em 4 ou 5 viagens. Elaborou uma teologia cristã e ao lado dos Evangelhos suas epístolas são fontes de todo pensamento, vida e mística cristãs. Além das grandes e contínuas viagens apostólicas e das prisões e sofrimentos por que passou, deve-se a ele que se denomina "servo de Cristo", a revelação da mensagem do Salvador, ou seja, as 13 Epístolas ou Cartas. Elas são a doutrina a Teologia do Novo Testamento, exposta por um Apóstolo. São Paulo, Apóstolo, sofreu o martírio em Roma. O ano é incerto, mas deve ter ocorrido entre 64 e 67.

  Duas festas litúrgicas foram criadas em homenagem a São Paulo. A primeira em 25 de janeiro, foi instituída na Gália, no século VIII, para lembrar a conversão do Apóstolo e entrou no calendário romano no final do século X. A segunda, lembrando o seu martírio a 29 de junho, juntamente com o do Apóstolo São Pedro, foi inserida no santoral (livro dos santos) e havia desde o século IV o costume de celebrar neste dia três Missas. A primeira na basílica de São Pedro no Vaticano, a segunda na basílica de São Paulo fora dos Muros e a terceira nas catacumbas de São Sebastião, onde as relíquias dos dois Apóstolos tiveram de ser escondidas por algum tempo para subtraí-las à profanação. Há um eco deste costume no fato de que além da Santa Missa do dia é previsto um formulário para a Santa Missa vespertina da vigília.

São Paulo, rogai por nós.



sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A Modéstia - Para senhoras e senhoritas




Por D. Ildefonso Rodriguez Villar


1ª Interior

Em geral, a modéstia é a virtude que regula todos os atos externos, dando-lhe a devida compostura e decoro..., apresentando-se, assim, aos olhares do próximo, como qualquer coisa digna, nobre e formosa. Mas a modéstia exterior necessariamente há de proceder da interior, que consiste em moderar e dirigir os movimentos desordenados da alma segundo a divina vontade. A modéstia exterior pode-se fingir e será então um repugnante ato de hipocrisia... A modéstia interior é a única que pode dar vida à modéstia exterior. Não deves, portanto, procurar conseguir uma aparência de modéstia..., uma modéstia postiça e mentirosa, com porte e maneiras externas que pareçam muito modestas, deixando depois que o teu coração seja vítima das baixas inclinações da concupiscência. 


Quando a verdadeira modéstia existe, é tal a união que se dá entre a exterior e a interior, que uma não anda sem a outra, as duas ajudam-se mutuamente, de sorte que a compostura exterior deve proceder sempre dum interior perfeitamente composto e ordenado... e a interior encontrará a sua melhor defesa e sustentáculo na exterior. São Francisco de Sales explica isto com a seguinte comparação: Como o fogo produz a cinza... e a cinza serve admiravelmente para manter e conservar o fogo..., assim sucede com estas duas modéstias, que a interior produz a exterior, e esta mantém e conserva a interior de onde brotou.

Esta modéstia interior, é de duas classes: uma que refreia os movimentos da concupiscência e os atos internos do entendimento..., da imaginação e da vontade, que nos levam ao pecado da impureza..., e a outra modéstia é a que modera os movimentos da alma, que têm relação com a soberba e pelas suas virtudes..., pela sua dignidade, podiam dar-se que não queremos ferir a sua modéstia... e outras vezes admiramos a modéstia de pessoas que pelos seus méritos..., pelas suas virtudes..., pela sua dignidade, podiam dar-se mais importância. Esta modéstia, como se vê, praticamente reduz-se ao exercício da verdadeira humildade; por isso a alma humilde há de ser necessariamente modesta interior e exteriormente.

Quanto a esta modéstia, é evidente que ninguém pôde jamais comparar-se com a Santíssima Virgem; ninguém houve com mais merecimentos, virtudes, santidade, dignidade e grandezas divinas... Quem foi, apesar disso, mais simples..., afável..., caritativa..., pobre e humilde do que Ela? E portanto, quem mais modesta quanto ao desprezo que fazia da importância da sua pessoa e da sua própria excelência?...

E quanto à modéstia oposta à concupiscência, onde encontrar uma ordem mais completa..., uma submissão mais perfeita de todos os seus pensamentos, sentimentos e afeições à regra da razão e desta à vontade de Deus?

2º. Exterior

Vejamos, porém, mais em concreto esta modéstia interior refletida em todos os atos exteriores do corpo e principalmente nos seguintes:

Sete últimas palavras de Jesus na Cruz: Quarta palavra.



Quarta palavra de Jesus Cristo na cruz:

Deus meus, Deus, meus, ut quid dereliquisti me?
“Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?”
(Math. 27, 46.)


I. Escreve São Leão, que aquele brado do Senhor não foi uma queixa, mas um ensino: Vox ista doctrina est, non querela. Ensino pelo qual Jesus nos quis mostrar quão grande é a malícia do pecado, que, por assim dizer, obrigou Deus a entregar a uma pena sem alívio seu Filho amadíssimo, unicamente por se ter este encarregado de satisfazer pelos nossos crimes. — Jesus não foi então abandonado pela divindade, nem privado da glória, que fora comunicada à sua alma bendita desde o primeiro instante de sua criação; foi, porém, privado de todo o consolo sensível com que Deus costuma confortar os seus servos fiéis, no meio de seus sofrimentos e foi entregue às trevas, a temores e amarguras, penas essas por nós merecidas. No horto o Getsêmani, Jesus sofreu igual privação da presença sensível da divindade; mas a que sofreu na cruz foi mais completa e mais amargosa.

Mas, ó Pai Eterno, que desgosto Vos deu jamais vosso Filho inocente e obedientíssimo, para o punirdes com uma morte tão amargosa? Vêde como está pregado no lenho, a cabeça atormentada pelos espinhos, como está suspenso em três pregos de ferro, apoiando-se nas mesmas chagas. Abandonaram-No todos, mesmo os seus discípulos; todos ao redor o escarnecem e blasfemam contra Ele; porque é que Vós, que tanto O amais, O haveis também abandonado?

Lembremo-nos que Jesus se tinha encarregado dos pecados de todos os homens. Por isso, muito embora fosse Jesus, quanto à sua pessoa, o mais santo de todos os homens, ou antes a santidade mesma, todavia pelo ônus assumido de satisfazer por todos os pecados, parecia ser o maior pecador do mundo, como tal se fizera réu em lugar de todos e se oferecera a pagar por todos. E já que nós merecíamos ser abandonados eternamente no inferno, entregues à desesperação eterna, Jesus quis ser entregue a uma morte sem consolação alguma, a fim de nos livrar assim da morte.

II. Demos graças a bondade do nosso Salvador, por ter tomado sobre si as penas por nós merecidas, a fim de nos livrar assim da morte eterna. Procuremos ser d’oravante gratos ao nosso libertador, expelindo de nosso coração todo o afeto que não seja para Ele. Quando estivermos em desconsolação espiritual, privados da presença sensível da divindade, unamos nossa desolação à que padeceu Jesus na hora de sua morte. — O Senhor não ficará ofendido, se nesse desamparo dissermos o que Ele mesmo no horto disse a seu Pai divino: “Pai meu, se é possível, passe de mim este cálice”(1) mas devemos logo acrescentar como Ele: “Todavia não seja como eu quero, mas sim como Tu”.

Se a desolação continuar, devemos repetir o mesmo ato de conformidade, assim como Jesus o repetiu durante as três horas de sua oração no Horto: Et oravit tertio, eumdem sermonem dicens (2) — “Orou pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras”. Diz São Francisco de Sales, que Jesus é igualmente amável quando se deixa ver como quando se esconde. — Pelo mais, o que mereceu o inferno e se vê fora dele, sempre deve dizer: Benedicam Dominum in omni tempore (3) — “Bendirei o Senhor em todo o tempo”. Senhor, não mereço consolações; fazei com que Vos ame sempre, e estou contente por viver em desolação por todo o tempo que Vos aprouver. Ah! Se os réprobos pudessem em suas penas conformar-se assim com a vontade divina, o inferno deixaria de ser inferno.

Ó meu Jesus, pelos merecimentos de vossa morte, rogo-Vos não me desampareis no grande combate que na hora da morte terei de sustentar contra o inferno. Então todos me abandonarão e não me poderão mais valer; Vós porém não me abandoneis, Vós morrestes por meu amor e só me podereis socorrer nesse momento supremo. Fazei-o pelo merecimento da pena que sofrestes no vosso desamparo, pelo qual nos merecestes não sejamos desamparados pela divina graça, conforme os nossos pecados tinham merecido. Fazei-o também pela dor que então sentiu vossa e minha amada Mãe, Maria. (*I 673.)

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1. Matth. 26, 39.
2. Matth. 26, 44.
3. Ps. 33, 2.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 183 - 186.)

Fonte: São Pio V

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Dominicanos De Avrillé em Defesa Da Obra De Monsenhor Lefebvre - Gloria Tibi Domine!



Dos Sacerdotes da Resistência

Apelo aos fiéis
     
Fiéis à herança de Dom Marcel Lefebvre e, em particular, à sua declaração memorável do dia 21 novembro de 1974, “ aderimos com todo o nosso coração , com toda a nossa alma, à Roma católica, guardiã da fé católica e das tradições necessárias para a manutenção dessa fé, à Roma eterna, amante da sabedoria e de verdade.”

      De acordo com o exemplo desse grande prelado, defensor intrépido da Igreja e da Sé Apostólica, “nós nos recusamos agora, ao contrário, e sempre nos recusamos a seguir a Roma neomodernista e neoprotestante que se manifestou claramente no Concílio Vaticano II, e depois do Concílio, em todas as reformas e orientações que derivaram dele”.

      Desde o ano de 2000, e sobretudo a partir de 2012, as autoridades da Fraternidade Sacerdotal São Pio X tomaram o caminho inverso, aproximando-se da Roma modernista.

      A Declaração Doutrinária de 15 de abril de 2012, seguida da exclusão de um bispo e de vários padres e confirmada pela condenação do livro Monsenhor Lefebvre, as nossas relações com Roma, tudo isso mostra a pertinácia nessa via que leva à morte.

      Nenhuma autoridade, mesmo a mais elevada na hierarquia, pode fazer-nos abandonar ou diminuir a nossa fé católica, claramente expressa pelo magistério da Igreja durante vinte séculos.

      Sob a proteção de Nossa Senhora, guardiã da Fé, queremos prosseguir a operação sobrevivência iniciada por Dom Lefebvre .

      Em consequência, nas circunstâncias trágicas em que nos encontramos, nós pomos o nosso sacerdócio à disposição de todos aqueles que querem manter-se fiéis ao combate da fé. É por isso que, a partir de agora, estamos empenhados em responder às exigências que nos serão feitas para sustentar suas famílias em suas funções educativas, oferecer a formação sacerdotal aos jovens que o desejarem, e assegurar a missa, os sacramentos e a formação doutrinal onde quer que seja necessário.

      Quanto a vocês, nós os exortamos a ser apóstolos zelosos do reino de Cristo Rei e Maria Rainha.
    
Viva Cristo Rei!
Nossa Senhora guardiã da fé, protegei-nos!
São Pio X, rogai por nós!

7 de janeiro de 2014

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Estamos à disposição dos nossos irmãos sacerdotes: vários não puderam ou não quiseram, no momento, associar-se à nossa postura. Que não hesitem em entrar em contato conosco (discrição assegurada) .

Contato: adresse.fidele @ gmail.com .

Estamos ainda à disposição das comunidades religiosas tradicionais que compreendem a extrema gravidade da situação real.

Assinaturas:

Pe. Roland de Mérode (Prieur, França)
Fr. Michel Koller (Prieur, França)
Pe. Hubert de Sainte- Marie d' Agneau (França)
Pe. Nicolas Pinaud (França)
Pe. Olivier Rioult (França)
Pe. Matthieu Salenave (França)
Pe. Pierre- Marie OP e 10 outros sacerdotes do Convento de Avrillé (França)
Pe. De Bruno OSB (França)
Pe. Avril, fundador da obra de Notre-Dame de Salérans (França)
Pe. Raffali (França)
Pe. Rémi Picot (Quênia)
Pe. Jean-Michel Faure (América do Sul )
Pe. François Chazal (Ásia) ]
Pe. Florian Abrahamowicz (Itália)
Pe. Brühwiller (Suíça)
Pe. Martin Fuchs (Áustria)
Pe. Patrick Girouard (Canadá)
Pe. David Hewko (EUA)
Pe. Pierre-Célestin N'Dong (Gabão)
Pe. Ernesto Cardozo (Brasil)
Pe. Arturo Vargas (México)
Pe. Fernando Altamira (Colombia)
Pe. Hugo Ruiz (México)
Pe. Juan Carlos Ortiz (Austrália)
Pe. Frank Sauer (Alemanha)
Pe. Eduardo Suelo (Ásia)
Pe. Richard Voigt (EUA)
Pe. Arnold Trauner (Áustria)
Pe. Trincado (México)
Pe. Valan Rajkumar (Ásia)
Pe. Rafael Arizaga OSB (México)
Pe. Tomás de Aquino Ferreira da Costa OSB (Brasil)
Pe. Jahir Brito, FMBV (Brasil)
Pe. Joaquim Daniel Maria de Sant'ana, FMBV (Brasil)




Mantendo as Famílias Católicas na Sociedade Moderna




Por D. Williamson
Traduzido por Andrea Patrícia


Caros Amigos e Benfeitores,

Como janeiro é o mês da Sagrada Família, e a família hoje vivendo numa grande aflição, aqui estão algumas reflexões de um sacerdote da FSSPX, Pe.  James Doran, extraídas dos vários anos de experiência pastoral com problemas familiares nas atuais paróquias “Tradicionais” dos Estados Unidos:

Q: Qual é o problema essencial da família na sociedade moderna?

Pe. D: Falta de visão dos pais, visão da Paternidade de Deus e portanto visão de sua própria paternidade. Eles não enxergam a nobreza e as obrigações de sua vocação em manifestar a Paternidade de Deus em seus próprios lares, então sua paternidade se desintegra em uma série de detalhes desconectados. Eles são reduzidos a “sustentadores da casa”, “marido”, “papai”, etc. Eles precisam de uma visão reintegradora de sua vocação e consagração no sacramento do matrimônio.

Q: Por que o mundo moderno torna as coisas tão difíceis para a família?

Pe. D: O mundo moderno é contrário a Cristo, contrário a natureza e a favor da Nova Ordem Mundial. Primeiramente, em seu materialismo, rejeitando Cristo, ele rejeita o sobrenatural e toda a ordem da graça, ele rejeita a superestrutura salvadora do sacramento do matrimônio. Secundariamente, rejeitando a natureza como sempre foi compreendida no passado, porque o homem tecnológico supostamente sabe mais, em nome da modernidade ele desmantela a estrutura natural do casamento, inclinando o homem e a mulher a transformar sua complementaridade natural numa tensão não natural. Em terceiro lugar, para construir uma Nova Ordem Mundial ele está lutando para dar a família uma nova estrutura que em teoria respeita todas as diferentes necessidades, mas que na prática divide todos os apartando de todos os outros numa planejada fragmentação e caos.

Q: Isso tudo é basicamente um problema da natureza ou da graça?

Pe. D: É problema de ambos, porque a natureza decaída é irredimível sem a graça, mas sem a natureza a graça não possui nada para curar, transformar ou elevar. O homem é um. Graça e natureza precisam se integrar. A graça é em si infinitamente mais alta que a natureza, mas não há estado de graça sem alguma pobre natureza para recebê-la. Mais uma vez: a visão precisa ser integral.

Q: Em quanto por cento – falando em geral – o senhor culpa o homem, em quanto por cento o senhor culpa a mulher pelos problemas atuais da família?