quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Meditações para o tempo de Natal (II)



JESUS NASCE MENINO.


Considera que a primeira indicação dada pelo anjo aos pastores para reconhecerem o Messias recém-nascido, foi que o acharam sob a forma duma criança: Achareis um menino envolto em paninhos e reclinado num presépio. A pequenez das crianças é um grande atrativo para os corações; mas esse atrativo deve ser bem maior e poderoso para nós em Jesus, que, sendo Deus infinito, se fez pequeno por nosso amor, como observa S. Agostinho.

Adão apareceu no mundo em estado de homem perfeito; mas o Verbo eterno quis nascer criança: Parvulus natus est nobis; e isso a fim de atrair mais fortemente nossos corações a seu amor. “Assim quis nascer, diz S. Pedro Crisólogo, Aquele que queria ser amado”. Não vem à terra espalhar o terror, mas conquistar o amor; eis porque quer mostrar-se primeiro como uma pobre e tenra criança. O Senhor é grande e infinitamente digno de louvores, exclama S. Bernardo, com o profeta-rei; mas considerando em seguida a Jesus feito uma criancinha no estábulo de Belém, o santo ajunta com ternura: “Esse Deus tão grande, meu soberano Senhor, se fez pequeno para mim, e se tornou excessivamente amável”.

Ah! Quem olha com fé um Deus feito menino a chorar e gemer sobre a palha, numa gruta, por amor de nós, como poderia deixar de amá-lo e convidar a todos a amá-lo, como fazia S. Francisco de Assis que dizia: Amemos o Menino de Belém, amemos o Menino de Belém! É uma criança, não fala, só solta vagidos, que são outros tantos gritos de amor com que nos convida a amá-lo e a dar-lhe o nosso coração.

Considera ainda que as crianças ganham o afeto por sua inocência. Todavia todas as outras crianças vêm ao mundo com a mancha do pecado original, ao passo que Jesus nasce em perfeita santidade, sem mancha alguma. O meu Dileto, dizia a Esposa sagrada, é todo rubro de amor e branco de inocência e pureza. Esse celeste Menino constitui as delícias do Padre eterno, porque, como diz S. Gregório, é o único absolutamente puro a seus olhos.

Mas, consolemo-nos, embora sejamos pobres pecadores; esse divino Infante veio do céu para comunicar-nos a sua inocência por sua Paixão. Os seus méritos, se deles soubermos aproveitar-nos, podem mudar-nos de pecadores em santos. Ponhamos pois toda a nossa confiança nos méritos de Jesus Cristo; peçamos sempre por eles ao Pai eterno as graças que desejamos, e tudo nos será concedido.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Meditações para o tempo de Natal (I)



DO NASCIMENTO DE JESUS.


O nascimento de Jesus Cristo foi motivo de alegria para todo o mundo. Ele era o Redentor esperado há tantos anos e o objeto de tantos suspiros que foi chamado o “Desejado das nações” e o “Desejo das colinas eternas”. Eis que veio; nasceu numa pequena gruta. Imaginemos que o anjo nos anuncia hoje esse grande motivo de júbilo que anunciou aos pastores de Belém: Eis que vos anuncio uma grande alegria que será partilhada por todo o povo, pois nasceu-vos hoje o Salvador. Que festa num reino por ocasião do nascimento do primeiro filho do rei! Devemos, porém regozijar-nos ainda mais vendo nascer o Filho de Deus, que premido pelas entranhas de sua misericórdia, do céu veio visitar-nos. Estávamos perdidos, e eis que ele veio ao mundo para salvar-nos. Eis o pastor que veio salvar suas ovelhas da morte, dando sua vida por seu amor. Eu sou o bom Pastor, diz ele, o bom Pastor dá sua vida por suas ovelhas. Eis o Cordeiro de Deus que veio imolar-se para nos obter a graça divina, e para ser o nosso libertador, a nossa vida, a nossa luz, e até nosso alimento no Santíssimo Sacramento.

Segundo S. Máximo, um dos motivos pelos quais Jesus quis, nascendo, ser colocado num presépio, onde os animais tomam seu alimento, foi dar-nos a entender que se fez homem não só para salvar-nos, mas também para ser o nosso alimento. Ainda mais, nasce todos os dias na Missa entre as mãos do sacerdote pela consagração: o altar é o presépio onde nos saciamos de sua carne divina. Há pessoas que desejariam receber em seus braços o santo Infante, como o santo velho Simeão; ora, a fé nos ensina que quando comungamos temos não só nos braços, mas no coração esse mesmo Jesus que estava no presépio de Belém. Nasceu precisamente para dar-se inteiramente a nós: Nasceu-nos um Menino, foi-nos dado um Filho.

Afetos e Súplicas.

Andei errante, como ovelha, que se desgarrou; busca o teu servo. Senhor, sou essa pobre ovelha que, para seguir seus gostos e caprichos, se perdeu miseravelmente; mas vós, Pastor e Cordeiro divino, viestes do céu para salvar-me imolando-vos sobre a cruz como vítima de expiação por meus pecados: Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira o pecado. Se quero, pois corrigir-me, que tenho a temer? Não devo confiar inteiramente em vós que nascestes justamente para salvar-me? Eis que Deus é meu Salvador; agirei com confiança e nada temereis. E que maior prova de misericórdia poderíeis dar-me, meu doce Redentor, para obrigar-me a confiar em vós, do que o terdes-vos dado a mim? Ó caro Menino, quanto sinto ter-vos ofendido! Eu vos fiz chorar no estábulo de Belém, mas, sabendo que viestes para me buscar, lanço-me aos vossos pés; e embora vos veja tão aflito e humilhado nesse presépio em que repousais sobre palha, reconheço-vos por meu Rei e meu soberano Senhor. Ouço os vossos ternos vagidos, que me convidam a amar-vos, e me pedem o coração; ei-lo, Jesus, estou agora aos vossos pés para vo-lo oferecer; transformai-o e inflamai-o, já que viestes ao mundo para abrasar os corações de vosso santo amor. Ouço-vos dizer-me do presépio: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração; e eu respondo: Ah! meu Jesus, se não amo a vós que sois meu Senhor e meu Deus, a quem amarei então? Vós vos declarais minha propriedade pois que nasceis para vos dar todo a mim; e eu recusaria ser vosso? Não, meu amado Senhor, dou-me todo a vós, e amo-vos de todo o meu coração. Sim, amo-vos, amo-vos, amo-vos, ó Bem supremo, único amor de minha alma! Por favor, recebei-me hoje, e não permitais eu cesse jamais de amar-vos.

Ó Maria, minha Soberana, eu vos conjuro pela alegria de que fostes inundada a primeira vez que os vossos olhos viram vosso divino Filho em seu nascimento e os vossos braços o apertaram contra o vosso seio materno, pedi-lhe aceite a oferta que lhe faço de mim mesmo, e me prenda a ele para sempre pelo dom de seu santo amor.

(Grifos nossos)
(Encarnação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo – Santo Afonso Maria de Ligório)

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Feliz Natal!



Um Feliz e Santo Natal e um próspero Ano Novo.
São os votos do Grupo Santo Tomás de Aquino a todos os seus leitores e amigos.




Meditações para o Natal (XVI)



Vós tirareis com gosto águas das fontes do Salvador (Is 12,3).


Considera as quatro fontes de graças que temos em Jesus Cristo, contempladas por S. Bernardo.

A primeira é uma fonte de misericórdia, em que podemos purificar-nos de todas as manchas do pecado. Essa fonte foi para nós formada com as lágrimas e o sangue do nosso Redentor: Ele nos amou e nos lavou dos nossos pecados com seu sangue.

A segunda é uma fonte de paz e de consolação em nossas penas. Invocai-me no dia da aflição, diz-nos Jesus, e eu vos consolarei. Se alguém tem sede das verdadeiras consolações possíveis nesta vida, venha a mim, que eu o contentarei. Quem bebe da água que eu darei, já não terá sede: virá a ser nele uma fonte de água que salte para a vida eterna. Isto é: Quem provar as águas do meu amor desprezará para sempre as delícias do mundo; ficará plenamente satisfeito quando entrar na mansão dos eleitos, porque a água da minha graça o levará ao céu. A paz que o Senhor dá às almas que o amam, não é a paz que o mundo nos promete quando nos convida aos prazeres sensuais; estes deixam após si mais amargura do que paz; a paz que Deus dá excede todos os prazeres dos sentido. Bem-aventurados os que tem sede das águas dessa fonte divina.

A terceira é uma fonte de devoção. Oh! como se torna devoto e pronto para obedecer à voz de Deus, como cresce sem-pre em virtudes, quem a miúdo medita o que Jesus Cristo fez por amor de nós! Será como uma árvore plantada junto às correntes das águas.

A quarta é uma fonte de amor. A meditação acenderá o fogo na minha alma. Não é possível que, quem medita os padecimentos e as humilhações que Jesus suportou por nosso amor, não se sinta inflamado do belo fogo que Ele veio trazer à terra.
Assim se verifica perfeitamente a palavra do profeta, que quem se aproveita dessas felizes fontes abertas para nós em Jesus Cristo, delas tira sem cessar águas de alegria e salvação: Vós tirareis com gosto águas das fontes do Salvador.

Afetos e Súplicas.

Ó doce e caro Salvador meu, quanto vos devo! quanto me tendes obrigado a amar-vos, já que por mim fizestes o que não faria um servo para o seu senhor nem um filho para seu pai! Se, pois me tendes amado mais do que qualquer outro, é justo que vos ame mais do que todos os outros. Quisera morrer de dor, quando penso que tanto padecestes por mim, que levastes o amor a aceitar a morte mais cruel e mais ignominiosa que possa um homem sofrer, e que eu tantas vezes tenho desprezado a vossa amizade. Quantas vezes me perdoastes e eu tornei a desprezar-vos! Mas os vossos méritos são a minha esperança. Agora prefiro a vossa graça a todos os reinos da terra. Amo-vos, e por amor de vós aceito qualquer espécie de pena e de morte. Se sou indigno de morrer pela mão dos algozes para glória vossa, aceito ao menos de coração a morte que me destinastes; aceito-a da maneira e no tempo que haveis determinado.

Maria, minha Mãe, obtende-me a graça de passar toda a minha vida e de morrer no amor de Jesus.



(Encarnação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo – Santo Afonso Maria de Ligório)


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Meditações para o Natal (XV)



Achareis um menino reclinado num presépio (Lc 2,12).


Um Deus nascido num estábulo!... Tomada de admiração ao contemplar esse prodígio, a Santa Igreja exclama: “Ó grande mistério, ó estupenda maravilha! animais veem o seu Deus, o Senhor do universo, recém-nascido e reclinado num presépio!”

Para contemplarmos com amor e ternura o nascimento de Jesus Cristo, devemos pedir ao Senhor nos dê uma fé viva. Se entrarmos sem fé na gruta de Belém, tudo se nos reduzirá a um sentimento de compaixão à vista duma criancinha tão pobre, que, nascendo no coração do inverno, está reclinada num presépio, sem lume, numa caverna fria. Ao contrário, se entrarmos com fé, consideraremos maduramente por que excesso de bondade e amor, um Deus quis humilhar-se ao ponto de aparecer como uma criança envolta em paninhos, reclinada sobre palha, chorando e tremendo de frio, sem poder mover-se e necessitada de leite para viver: e então como não nos sentirmos atraídos e docemente constrangidos a dar todos os nossos afetos a esse Deus-Menino que se reduziu a tal estado para se fazer amar?

Depois de haverem visitado a Jesus no estábulo, narra S. Lucas, os pastores voltaram glorificando e louvando a Deus por tudo quanto tinham ouvido e visto. Mas que haviam eles visto? Nada mais que uma pobre criança a tremer de frio sobre um pouco de palha; mas aclarados pela fé, reconheceram naquela criança o excesso do amor divino e, inflamados desse amor, foram-se louvando e bendizendo o Senhor, que lhes havia dado a graça de ver um Deus humilhado, aniquilado por amor dos homens.

Afetos e Súplicas.

Ó doce e amável Menino, embora vos veja tão pobre sobre a palha, reconheço-vos e adoro-vos como meu Senhor e Criador. Sei quem vos reduziu a tão miserável estado: foi o vosso amor por mim. Recordando-me, pois, meu Jesus, da maneira com que vos tratei no passado, das injúrias que vos fiz, admiro-me de me haverdes suportado. — Ah! pecados malditos, que fizestes? Enchestes de amargura o coração do meu amado Senhor! — Ah! meu caro Salvador, pelas dores que suportastes e pelas lágrimas que derramastes no estábulo de Belém, dai-me lágrimas, dai-me uma grande dor que me faça chorar toda a minha vida os desgostos que vos dei. Dai-me amor para convosco, mas um amor que compense as ofensas que vos fiz. Amo-vos, meu pequenino Salvador, amo-vos, meu Deus-Menino, amo-vos, meu amor, minha vida, meu tudo; prometo não amar doravante senão a vós. Ajudai-me com a vossa graça sem a qual nada posso.

Maria, minha esperança, obtendes tudo o que quereis de vosso Filho; pedi-lhe me conceda seu santo amor. Ó minha Mãe, atendei-me.

(Encarnação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo – Santo Afonso Maria de Ligório)