quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

"Eu vos saúdo Maria" - S. Luís Maria G. de Montfort



 "Eu vos saúdo, Maria"


Eu vos saúdo, Maria, Filha bem-amada do eterno Pai, Mãe admirável do Filho, Esposa mui fiel do Espírito Santo, templo augusto da Santíssima Trindade; eu vos saúdo, soberana Princesa, a quem tudo está submisso no Céu e na terra; eu vos saúdo, seguro refúgio dos pecadores, nossa Senhora da misericórdia, que jamais repelistes pessoa alguma. Pecador que sou, me prostro a vossos pés, e vos peço de me obter de Jesus, vosso amado Filho, a contrição e o perdão de todos os meus pecados, e a divina sabedoria. Eu me consagro todo a vós, com tudo o que possuo. Eu vos tomo, hoje, por minha Mãe e Senhora. Tratai-me, pois, como o último de vossos filhos e o mais obediente de vossos escravos. Atendei, minha Princesa, atendei aos suspiros dum coração que deseja amar-vos e servir-vos fielmente. Que ninguém diga que, entre todos que a vós recorreram, seja eu o primeiro desamparado. Ó minha esperança, ó minha vida, ó minha fiel e imaculada Virgem Maria, defendei-me, nutri-me, escutai-me, instruí-me, salvai-me. Assim seja

(Oração retirada do livro Tratado da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora de S. Luís Maria G. de Montfort) 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Meditações para o tempo da Epifania (VIII)



SOBRE A PERDA DE JESUS NO TEMPLO

 
 
Segundo a narração de S. Lucas, Maria e José iam cada ano a Jerusalém para a festa da Páscoa, e levavam consigo a Jesus Menino. Nessas circunstâncias, ao menos na volta, os homens e as mulheres iam separadamente; assim exigia o costume dos hebreus, observa o Venerável Beda; e as crianças acompanhavam à vontade o pai ou a mãe. Quando Nosso Senhor chegou à idade de doze anos, sucedeu-lhe ficar em Jerusalém durante três dias após a solenidade, julgando Maria estivesse ele com José, e José que estivesse com Maria.

O santo Menino passou todos esses três dias honrando a seu Pai eterno com jejuns, vigílias, preces, e com a assistência aos sacrifícios, que eram outras tantas figuras do grande sacrifício que Ele devia oferecer na cruz. Se é que então tomou algum alimento, diz S. Bernardo, teve de mendigá-lo; e se tomou algum repouso, não teve outro leito que a terra nua.

Chegada a tarde, Maria e José notam com dor a ausência de Jesus. Põem-se a procurá-lo entre os seus parentes e amigos, mas em vão. Voltam em fim a Jerusalém, e ao terceiro dia o encontram no templo a disputar com os doutores, espantados e cheios de admiração ao ouvirem as perguntas e as respostas daquele Menino extraordinário.
Não há na terra pena semelhante à duma alma que ama a Jesus, e que teme Jesus se tenha dela apartada por causa dalguma falta. Tal foi a extrema aflição de Maria e José naqueles três dias em que foram privados da presença de Jesus; como diz o devoto Lanspérgio, a sua humildade lhes fazia temer terem-se tornado indignos de guardar tão precioso tesouro. Eis por que, ao revê-lo, Maria lhe disse com ternura: Meu Filho, por que fizestes assim conosco? vosso pai e eu vos procurávamos com o coração repleto de dor. — Não sabíeis, respondeu-lhe Jesus, que devo ocupar-me das coisas que são do serviço de meu Pai?

Aprendamos duas coisas desse mistério: a primeira, que devemos abandonar tudo, amigos e parentes, quando se trata de trabalhar para a glória de Deus; a segunda, que Deus se faz achar por aqueles que o procuram

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Meditações para o tempo da Epifania (VII)



JESUS EM NAZARÉ. (Continuação)


Na casa de Nazaré, Jesus Menino crescia em sabedoria, e em idade, e em graça, diante de Deus e dos homens. Consideremos atentamente essas palavras de S. Lucas.

Na media que Jesus crescia em idade, crescia também em sabedoria; não que adquirisse com os anos um maior conhecimento das coisas, como se dá conosco; pois, desde o momento de sua conceição, Jesus foi cheio de toda a ciência e de toda a sabedoria divinas; mas diz-se que Ele progredia porque, avançando em idade, manifestava mais e mais sua sublime sabedoria.

Da mesma maneira se deve entender o resto do texto. Jesus crescia em graça diante de Deus: as ações do Homem-Deus não podiam torná-lo mais santo, nem aumentar seus méritos, pois que desde o começo era cheio de santidade e de mérito, e é de sua plenitude, observa S. João, que nós recebemos todas as graças; todavia, as ações de nosso Redentor eram todas suficientes, em si mesmas, para aumentar sua graça e seu mérito.

Crescia também em graça diante dos homens, no sentido que crescia em beleza e amabilidade. Oh! Jesus, em sua mocidade, tornava-se cada dia mais caro e mais amável, manifestando melhor os belos títulos que tinha ao nosso amor. Com que presteza o santo adolescente obedecia a Maria e a José! com que recolhimento de espírito trabalhava! com que modéstia tomava o alimento! com quanta discrição falava! com que doçura e afabilidade se entretinha com todos! com que devoção orava! Numa palavra, todas as ações, todas as palavras, todos os movimentos de Jesus, eram outras tantas setas de amor lançadas ao coração de todos os que o viam, e sobretudo de Maria e de José, que tiveram a felicidade de vê-lo constantemente a seu lado. Oh! quão atentos eram esses santos esposos em contemplar e admirar todas as ações, palavras e passos do Homem-Deus! 

domingo, 12 de janeiro de 2014

Meditações para o tempo da Epifania (VI)



JESUS EM NAZARÉ.

 
Chegando na Palestina, S. José soube que Arquelau reinava na Judéia em lugar de seu pai Herodes; eis por que temeu lá ficar, e, avisado em sonho, foi a Nazaré, cidade da Galiléia, onde se estabeleceu numa pobre casa. — Ó feliz casa de Nazaré, eu te saúdo e venero: virá um tempo em que serás visitada pelos maiores personagens da terra; e quando os piedosos peregrinos se virem entre os teus muros, não se cansarão de derramar lágrimas de enternecimento, pensando que o Rei do céu aí passou quase toda a sua vida.

É nessa habitação que o Verbo encarnado passou o resto de sua infância e toda a sua mocidade; e como viveu lá? viveu pobre e desprezado dos homens, exercendo o ofício dum simples operário, e obedecendo a Maria e a José! Oh! que tocante espetáculo: ver o Filho de Deus vivendo como servo nessa pobre morada! ora baldeia água; ora abre ou fecha a oficina; ora varre a casa; ora ajunta a lenha para o fogo; ora fatiga-se ajudando a José em seu trabalho. Ó prodígio! Ó pensamento que deveria consumir-nos de amor para com um Redentor, que se reduziu a tais abaixamentos para se fazer amar por nós!
Adoremos todas essas ações servis de Jesus, que eram todas divinas. Adoremos sobretudo a vida humilde e oculta que Jesus levou na casa de Nazaré. — Ó homens soberbos, como podeis desejar aparecer e ser honrados, vendo o vosso Deus viver pobre, oculto, desconhecido, durante trinta anos, a fim de nos inspirar o amor do retiro e duma vida humilde e obscura?

Afetos e Súplicas.

Ó adorável Menino, vejo-vos trabalhar e suar como o último dos operários nessa pobre oficina; é por mim, bem o sei, que vos abaixais e vos fatigais assim. Assim como empregastes toda a vossa vida por meu amor, fazei, meu amado Senhor, que por minha vez eu empregue por vosso amor todo o resto da minha vida. Não olheis para a minha vida passada, que foi uma vida de desordens, uma vida de pecados, e é para mim e para vós motivo de dores e lágrimas. Ah! permiti que doravante eu trabalhe e sofra em união convosco para morrer depois convosco no Calvário, completamente resignado à morte que me haveis destinado. Meu caro Jesus, ó meu amor, não permitais vos deixe e abandone ainda, como fiz no passado. Vós, meu Deus, vivestes oculto, desconhecido, desprezado; suportastes, num lar pobre, todas as privações da pobreza! e eu, vil verme, tenho procurado as honras e os prazeres, e, por essas vaidades, ah! me tenho separado de vós, que sois o bem supremo! Ah! não seja mais assim, meu Jesus, amo-vos, e porque vos amo, não quero mais separar-me de vós. Renuncio a tudo para me unir a vós, meu Salvador oculto e desconhecido. A vossa graça me faz mais feliz do que todas as vaidades e todos os gozos terrestres, pelos quais tive a infelicidade de vos deixar. — Padre eterno, pelos méritos de Jesus Cristo, uni-me estreitamente a vós pelo dom do vosso santo amor.

Santíssima Virgem, fostes feliz de partilhar as privações e a obscuridade de Jesus, e de vos tornar semelhante a esse caro Filho! Minha Mãe, fazei que também eu, ao menos no tempo que me resta de vida, me torne semelhante a vós e a meu Redentor.

(Encarnação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo – Santo Afonso Maria de Ligório)

sábado, 11 de janeiro de 2014

Catecismo Os 10 mandamentos: "III° mandamento; Guardar domingos e dias de festa"







Meditações para o tempo da Epifania (V)



SOBRE A VOLTA DE JESUS À PALESTINA

 
Tendo Herodes falecido, depois que Jesus passou sete anos, segundo a opinião comum dos Doutores, no seu exílio no Egito, o anjo apareceu de novo a S. José, e ordenou tomasse o divino Infante e sua Mãe e voltasse à Palestina. Consolado com esse aviso, José o participa a Maria. Antes de partirem esses dois esposos julgam de seu dever despedir-se dos amigos que se fizeram no país em que se demoraram. Em seguida munem-se ainda, José das poucas ferramentas, Maria dos pobres apetrechos da família, e dando a mão ao Menino Jesus, que colocam no meio, põem-se a caminho.
S. Boaventura considera que a volta foi mais fatigante para Jesus do que a fugida para o Egito: Ele crescera, Maria e José não podiam mais carregá-lo muito tempo em seus braços; doutro lado, nessa idade, Ele não era capaz de fazer a pé longas jornadas; o cansaço, obrigava-o pois a fazer paradas frequentes. Mas José e Maria, seja de caminho, seja no repouso, não tiravam os olhos do adorável Menino, que era o objeto de todos os seus pensamentos e de todo o seu amor. Oh! com quanto recolhimento percorre o caminho da vida e alma feliz que não perde de vista o amor e os exemplos de Jesus Cristo!

Durante a jornada os nossos piedosos viajantes rompem de vez em quando o silêncio e se entregam a um santo entretenimento; mas com quem e de quem falam? só falam com Jesus e de Jesus. Quem leva a Jesus em seu coração, não fala senão com Jesus ou não fala senão de Jesus.

Consideremos ainda a pena que, na viagem, nosso Salvador teve de sofrer durante as noites: já não tinha por leito, como na ida, o seio de Maria, mas a terra nua; já não tinha por alimento o leite materno, mas um pouco de pão seco, alimento bem duro para a sua tenra idade. Padeceu ainda a sede naquele deserto em que os hebreus, faltando-lhes a água, precisaram dum milagre para se dessedentar. Contemplemos e adoremos com amor todos os sofrimentos de Jesus Menino.


Afetos e Súplicas.

Caro e adorável Menino, dizei-me para onde voltais; para a vossa pátria? Ó dor! os vossos concidadãos preparam-vos desprezos para a vossa vida, e depois flagelos, espinhos, ignomínias e uma cruz, para a vossa morte. Tudo isso está presente aos olhos de vossa divindade, meu Jesus, e correis à paixão que os homens vos prepararam! Ah! meu Redentor, se não tivésseis vindo morrer por mim, eu não poderia ir amar-vos no paraíso, teria de ficar para sempre afastado de vós. A vossa morte foi a minha salvação. Mas, Senhor, como pude desprezar vossa graça e pronunciar contra mim uma nova condenação ao inferno, mesmo depois de libertado dele por vossa morte? Reconheço, um inferno é pouco para mim. Mas esperastes-me para me dar o perdão, ó meu Salvador, agradeço-vos e penetrado de arrependimento detesto todos os desgostos que vos causei. Por favor, Senhor, livrai-me do inferno! Ah! se tivesse a desgraça de condenar-me, que inferno mais horrível do que o próprio inferno, seria para mim o remorso de me haver perdido depois de ter meditado durante a vida o amor que me tivestes! Não, meu Jesus, não seria tanto o fogo eterno, mas muito mais a lembrança do vosso amor, que seria o meu inferno. Ah! viestes ao mundo acender o fogo de vosso santo amor; é nesse fogo que eu quero arder, e não no que me conservaria para sempre afastado de vós. Repito-o, pois, ó meu Jesus, livrai-me do inferno, pois que no inferno vos não poderia amar!

Ó Maria, minha Mãe, ouço dizer e pregar em toda a parte que não vão para o inferno os que vos amam e confiam em vós, se se quiserem corrigir: amo-vos, Soberana minha, confio em vós, e quero corrigir-me; ó Maria, preservai-me do inferno.

(Encarnação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo – Santo Afonso Maria de Ligório)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Cristo deveria ser circuncidado?




Parece que Cristo não devia ser circuncidado.

1. — Pois, a realização da verdade elimina o que a prefigurava. Ora, a circuncisão foi ordenada a Abraão como sinal da aliança que devia provir da sua raça, como se lê na Escritura. Ora, essa aliança se cumpriu com a natividade de Cristo. Logo, devia ter feito desde logo cessar a circuncisão.

2. Demais. — Toda ação de Cristo serve de instrução para nós. Donde o dizer o Evangelho: Eu dei-vos o exemplo, para que como eu vos fiz, assim façais vós também. Ora nós não devemos ser circuncidados, conforme ao dito do Apóstolo: Se vos faz eis circuncidar, Cristo vos não aproveitará nada. Logo, parece que também Cristo não devia ser circuncidado.

3. Demais. — A circuncisão foi ordenada como remédio do pecado original. Ora, Cristo não contraiu o pecado original, como do sobredito resulta. Logo, Cristo não devia ser circuncidado.

Mas, em contrário, o Evangelho: Depois que foram cumpridos os oito dias para ser circuncidado o menino.

SOLUÇÃO. — Por várias causas Cristo devia ser circuncidado. — Primeiro, para demonstrar que se tinha verdadeiramente encarnado, contra Maniqueu, que dizia ter sido fantástico o corpo de Cristo; e contra Apolinário, que dizia ser o corpo de Cristo consubstancial com a divindade; e contra Valentiniano, que dizia ter Cristo trazido do céu o seu corpo. — Segundo, para que aprovasse a circuncisão, que Deus outrora instituíra. — Terceiro, para provar que era da raça de Abraão, que recebera o mandado de circuncisão em sinal da fé que tinha na vinda de Cristo. — Quarto, para tirar aos judeus a ocasião de não o receberem, se fosse incircunciso. — Quinto, para os recomendar, com o seu exemplo, a virtude da obediência. Por isso foi circuncidado no oitavo dia, como estava preceituado na lei. — Sexto, para que, quem se revestiu da semelhança da carne de pecado, não rejeitasse o remédio habitual de purificar essa carne pecaminosa. — Sétimo, para que, suportando sobre si todo o peso da lei, nos libertasse dele, segundo àquilo do Apóstolo: Enviou Deus a seu Filho feito sujeito à lei; a fim de servir aqueles que estavam debaixo da lei.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — A circuncisão, feita pela remoção deuma película carnal no membro da geração, significava a liberação da antiga geração, da qual nos libertamos pela paixão de Cristo. Por onde, a verdade dessa figura não foi plenamente realizada na natividade de Cristo; mas na sua paixão, antes da qual a circuncisão tinha a sua virtude e a sua razão de ser. Por isso convinha Cristo, antes da sua paixão, ser circuncidado, como filho de Abraão.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Cristo recebeu a circuncisão no tempo em que ela era de preceito. Por onde, a sua ação devemos nós imita-la, observando o que em nosso tempo é de preceito; pois, todas as coisas têm seu tempo e sua oportunidade, como diz a Escritura.

Além disso, diz Orígenes: Assim como morremos com a morte de Cristo e ressurgimos com a sua ressurreição, assim também por Cristo recebemos a circuncisão espiritual. Por isso não precisamos da circuncisão carnal. E tal é o que diz o Apóstolo: Nele, isto é, em Cristo, é que vós estais circuncidados de circuncisão não feita por mão de homem no despojo do corpo da carne, mas sim na circuncisão de Cristo"

RESPOSTA À TERCEIRA. — Cristo, que não tinha nenhum pecado sofreu por nós, de vontade própria, a morte, que é o efeito do pecado, para nos livrar dela e fazer-nos morrer espiritualmente para o pecado. Assim também sujeitou-se à circuncisão, remédio do pecado original, sem que tivesse esse pecado, para nos livrar dojugo da lei e produzirem nós a circuncisão espiritual, de modo que realizasse a verdade, abolindo a figura.

(Suma Teológica, Parte III, quest. 37, art. 1)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Meditações para o tempo da Epifania (IV)



SOBRE A ESTADA DE JESUS NO EGITO.


Jesus quis passar sua primeira infância no Egito, a fim de levar uma vida mais dura e desprezada. Segundo S. Anselmo e outros autores, a Sagrada Família foi morar em Heliópolis. Contemplemos, com S. Boaventura, a vida que Jesus levou nesse lugar de exílio, durante os sete anos que lá passou, como foi revelado a S. Maria Madalena de Pazzi.

A sua habitação era extremamente pobre, pois S. José só podia pagar aluguel módico; eu leito é pobre, sua alimentação é pobre, numa palavra, toda a sua vida é pobre, pois que mal têm, pelos trabalhos de suas mãos, com que sustentar-se cada dia, e vivem num país onde são desconhecidos e desprezados, e não têm parentes nem amigos. Sim, vivem em grande pobreza; mas, como são regradas todas as suas ocupações! O divino Infante não fala com os lábios; mas fala continuamente de coração e seu Pai celeste, e oferece-lhe todos os seus sofrimentos e todos os momentos de sua vida pela nossa salvação. Maria também não fala; mas, à vista do adorável Menino, contempla a grandeza do amor de Deus e a graça que lhe fez escolhendo-a por mãe. José trabalha também em silêncio, e, abrasado de amor por seu Deus feito Menino, agradece-lhe por havê-lo escolhido por companheiro e guarda de sua vida.

É lá que Maria desaleita a Jesus: antes alimentava-o ao seio; agora nutre-o com sua mão: conservando-o sobre os joelhos, toma duma xícara um pouco de pão embebido em água e leva-o à boca sagrada de seu Filho. É lá que Maria lhe faz a primeira roupa; chegado o tempo, reveste-o dela em substituição às faixas que lhe tira. É ainda lá que Jesus começa a andar e falar. Adoremos os primeiros passos que o Verbo encarnado dá neste exílio, e as primeiras palavras de vida eterna que profere. É lá também que Jesus começa a praticar o ofício de operário, dedicando-se aos pequenos serviços que uma criança pode prestar.

Ó desaleitamento dum Deus! ó primeira túnica, primeiros passos, primeiras palavras, pequenos trabalhos de Jesus Menino! feris e inflamais os corações dos que amam a Jesus e que vos consideram. Um Deus que vacila e cai ao caminhar! um Deus que balbucia! um Deus tornado fraco ao ponto de se entregar apenas aos pequenos serviços da casa, fraco ao ponto de não poder levantar uma peça de madeira cujo peso ultrapassa as forças duma criança! — Ó santa fé, aclara-nos, e faz-nos amar esse bom Senhor descido por nosso amor e tão profundo abaixamento!

À chegada de Jesus no Egito, todos os ídolos desse país foram derrubados; peçamos a Deus a graça de amar a Jesus de todo o coração, pois que todos os ídolos dos afetos terrenos desaparecem da alma em que entra o amor de Jesus.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Meditações para o tempo da Epifania (III)



SOBRE A FUGA DE JESUS AO EGITO.


Um anjo aparece em sonho a S. José, e avisa-o que Herodes procura o Menino Jesus para tirar-lhe a vida: Levantei-vos, diz-lhe, tomai o Menino e sua Mãe, e fugi para o Egito. Apenas nascido é Jesus perseguido de morte! Herodes é a figura dos infelizes pecadores que, mal Jesus entrou em seu coração pela absolvição, se põem logo a persegui-lo, a fazê-lo morrer pelo pecado: como aquele príncipe iníquo, atentam contra a vida de Jesus recém-nascido.

José obedece sem delongas à voz do anjo, e avisa sua santa Esposa. Toma as ferramentas que pode levar, a fim de encontrar no exercício de sua profissão o meio de sustentar sua pobre família no Egito. Maria, de seu lado, ajunta e toma consigo os paninhos necessários ao divino Infante; depois, aproximando-se do berço em que Ele repousa, lança-se de joelhos, beija os pés de seu Filho querido, e enternecida lhe diz em prantos: Meu Filho e meu Deus, viestes ao mundo para salvar os homens; acabais de nascer, e já os homens vos procuram para vos dar a morte! — Toma-o em seus braços, fecham a porta e se põem a caminho naquela mesma noite. Consideremos a preocupação dos dois santos viajantes durante o caminho. O seu caro Jesus é o objeto de todos os seus entretenimentos: falando da sua paciência e amor, adoçam as fadigas e os enfados do longo trajeto. Oh! Como é doce sofrer à vista de Jesus padecente! — Ó minha alma, exclama S. Boaventura, acompanha em espírito esses três santos e pobres exilados, compadece-te das penas que sofrem em viagem tão fatigante, incômoda e longa, e pede a Maria te confie o seu divino Filho para o levares em teu coração.

Consideremos ainda quanto eles tiveram de sofrer sobretudo nas noites frias que tinham de passar no meio do deserto. A terra numa lhes serve de leite ao relento; o Menino Jesus chora, Maria e José choram também de compaixão. — Ó santa fé! que olhos não chorariam vendo o Filho de Deus sob a forma duma criancinha, que, pobre e abandonada, foge para o Egito pelo deserto a fim de escapar à morte?