terça-feira, 2 de outubro de 2012

O PAI - A sua importância e os seus deveres - Parte 1





Eminência 1,
Meus senhores,

Aprouve a Deus, em Sua sabedoria, que o ser humano viesse ao mundo e se multiplicasse por intercessão recíproca do homem e da mulher, destas duas criaturas indissoluvelmente unidas por sua livre vontade. Daí, estas duas palavras importantes do Genesis: crescite et multiplicamini2. Digamos só algumas palavras da sua importância para insistirmos sobre os seus deveres.

Quem falará da importância da paternidade? Na ordem da natureza, não há outra mais elevada; fica-se deslumbrado quando se pensa nisto. O poder de criar, de tirar do nada, de fazer do nada alguma coisa; este privilégio sublime, que só pertence a Deus; este poder, que está acima de todos os poderes; este atributo, que é o caráter próprio do soberano Senhor de todas as coisas; este poder de dar a vida, e que acreditávamos incomunicável, foi da vontade de Deus concedê-lo ao homem.

É Ele, sem dúvida, que conserva a Sua propriedade radical, e o homem não age independentemente, mas sim por um poder comunicado; mas comunicado com tal liberalidade, que seriamos tentado a dizer: com que imprudência! Parece que Deus se desapossou, que se privou a Si próprio desse poder da vida, para o deixar, para sempre, à vontade do homem. Poderia Ele elevar o homem a maior altura, dar-lhe um dom natural
mais sublime, mais admirável, que ultrapasse a divindade? ego dixi: dii estis3; (eu vos digo: sois deuses).

Desde a origem do mundo, o nome de pai é o mais belo, o mais santo, depois do nome de Deus. Divino, por sua origem e natureza, pois que o nome de pai representa a própria autoridade do poder criador e da vida dada; é ainda o alicerce do primeiro império estabelecido entre os homens - o império doméstico; e ficou sempre como o tipo do que há de mais venerável.

Quanto ao homem, queriam mostrar a importância que davam a uma dignidade, a uma instituição, a um serviço prestado; recorriam a esta palavra, para tomarem alguma coisa de sua aureola e majestade. Para exprimirem o que têm de mais caro, depois da família, e que não é senão uma extensão dela, dizem: a pátria. Para honrarem certos homens dentre todos os outros, deram-lhes o nome de pais da pátria, pais do povo, pais conscritos, patriarcas.
A própria religião, para glorificar ou caracterizar o que tinha de mais grandioso e de mais sublime, não achou palavra mais bela, e disse: pais da fé, pais do deserto, pais dos concílios, pais da Igreja, pais das almas, pais espirituais. Deu-se este nome ao próprio chefe da Igreja: Papa, que significa pai.

Que digo eu? Quando o Filho de Deus quis ensinar-nos a rezar, não achou nome mais augusto, para colocar nos lábios, do que o de «Padre-Nosso», para mostrar ao mesmo tempo que Deus não tem prerrogativa mais sublime, e que toda a paternidade dimana d'Ele: Unus Deus et Pater omnium4.

Não! nada, sobre a terra, é mais nobre do que a paternidade humana, pois que nela encontram-se, ao mesmo tempo, a comunicação da paternidade divina, a origem, o modelo de toda a autoridade, de todo bem, de toda a grandeza, e como que uma expansão misteriosa do próprio sacerdócio.
Sim! o pai é padre em toda a extensão do termo, e só ele o era no principio: regale sacerdotium5. É por isso que a religião sempre reconheceu ao pai o direito e o poder de abençoar.

Os pagãos não abençoavam. Enéas transporta, das ruínas de Tróia, o seu velho pai, às costas; e seu pai, quando morre, não o abençoa. As palavras de Heitor a seu filho, nos braços de Andrômaca, são heróicas, mas não o abençoa.
Priamo, o mais sublime dos pais da antiguidade, não abençoara Heitor antes do combate.

Mas entre o povo de Deus, Abraão, Isaac, Jacob, e os patriarcas de todos os tempos abençoaram seus filhos. Entre todos os povos cristãos, nos tempos de fé, os pais abençoavam seus filhos em ocasiões graves e solenes, pelo menos à hora da morte; como Deus o havia feito ao primeiro homem, e Jesus Cristo aos Seus apóstolos, quando subiu ao céu.

Ainda hoje se vê pais abençoarem os filhos, por exemplo, na ocasião da sua primeira comunhão, e esta bênção, emanando do coração de um pai sobre seus filhos, volta, de novo, ao coração paterno, e torna-se, para ele mesmo, uma bênção de Deus. É verdadeiramente um sacerdócio, em que o pai sente uma dessas emoções poderosas, que comovem até ao mais íntimo da alma.

A emoção ainda é mais forte, para os que se sentem menos dignos de uma função tão pura. Já se viu pais recusarem obstinadamente a bênção a seus filhos e exclamarem: Não, não! não posso! Em seguida, cederem, e tendo dado a bênção, derramarem lágrimas, que depois não podiam estancar.

Ah! Meus senhores, qualquer que seja o estado de um homem, por mais baixo que tenha descido, há alguma coisa que o eleva, e se torna, para ele mesmo, a fonte inesgotável dos mais nobres sentimentos - a consciência de ser pai.
Tem-se visto pais recuperarem, em presença dos filhos e num instante, toda a dignidade e respeito de si mesmos, que o mal lhes havia feito perder, e tornarem-se bons, castos, justos, crentes e cristãos!

E se acontece - pois, na humanidade, que é livre, dá-se o contraste espantoso de haver santos e de haver miseráveis, - se acontece, repito, que um homem calque aos pés o seu dever de pai e volva contra seu próprio filho esse poder de amor, de proteção física e moral, levanta-se um grito de indignação e de espanto! Este pai desnaturado, que assim procede, é incluído, por unanimidade, na classe dos monstros... A grandeza de sua queda, ainda mostra melhor a altura de que caiu, e qual é a nobreza o sacerdócio real do pai que não pode recusar o seu diadema sem cair completamente e causar horror! ...
Há perdão para tudo; e a alegria do padre é apagar tais iniquidades; mas é preciso o poder infinito do sangue redentor, para lavar tais manchas e levantar de tais quedas! ...

Notas:

1-      S. E. o Cardeal Arcebispo de Paris presidia à Reunião.
2-      Genesis VIII, 17 “Crescei e multiplicai-vos.”
3-      Salmo, XXXI, 6.
4-      Epístola aos Efésios, IV. 6. “Um só Deus e Pai de todos.”
5-     Epístola de S. Pedro, II, 6. “Sacerdote real.”


Fonte: A Grande Guerra

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